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sábado

poema descritivo, de minuto.

 num orgasmo
a luz azul
turquesa quase
neon, austera
austríaca
de tanto frio

projeta
a silhueta
na parede
do quarto

e contorcia
não músculo
tendão
espreguiçando
o corpo como lava
e vulcaniza

então

a luz azul
faísca, pisca
como quem aplaude
o tímido espetáculo

especulo

na quase
escuridão
do quarto

elas

sou eu desfolhada
naquelas

que se deixam
refletir na íris outra
               

domingo

poesia sobre um diálogo na lapa


Disse
como quem diz
que nem
jeito tem

e o que não
tem remédio
está remediado

já?

            *

Duas velas azuis
pra oxalá
ela disse
pras crianças
explica
olhando minha
palma estan-
que trêmula
fixando
o olho
vesgo
de vinho
na
linha
da
minha
mão

como fosse
simples
aquele espaço
entre e já?
nada ali
coubesse
em curso
noutro

                        *

Estanque é como fosse
Uma lanhura
O não-lugar da minha palma
Tattoo ou scar
Ou ficção
Como fosse uma fissura
O não-lugar da minha mão

quarta-feira

poesia sobre o ocorrido entre as 5:20 e 5:30 e som complementar





o pássaro entra pela janela / esvoaça pra dentro do quarto / bate as asas contra o teto / tromba na parede / topa na quina do armário / empoleira num gancho / [ pego o chapéu na menção de resgate ] / o pássaro  alvoroça com o gesto que nem a bruto ou abrupto chega e novamente espicaça / acaba por ir ao chão / poderia em segundos ascender / lhe custa a vida / ( o gato assiste ao evento atento // não só atento // ávido // não só ávido // assaz // não só assaz // astuto // não só astuto // de dentes e gana à prumo os olhos fixos o corpo inteiro tenciona é flecha do arco antes de inferir o centro do alvo // abocanha ) / [ estupefaço diante do espetáculo / no ímpeto de alma nobre tento salvar o pássaro ao qual está acoplado o gato / trago aquilo até a janela // não basta proferir tabefes // não basta forçar a lateral da boca em que há dente // não basta sacudir no ar aquilo / aquilo está em simbiose // aquilo é uma entidade siamesma // aquilo são um // é natural que seja, assim / aquilo é convidado a se retirar pra que minutos adiante seja o gato ]

terça-feira

um poema

a vida me conta
coisas mexendo
a bocarra em si
lêncio   ou  suss
urro   tão  baixo
que   intuo   por
leitura  l a b i a l


mas


a  sala me conta
históriasemcerta
freqüência de  si
lêncio   ou  suss
urro  tão   pouca
que escuto  com
ouvidocolado  no
c      h     ã      o


mas


o  livro  me  fala
muito além dess
es lábios em  sil
êncio  veemente
mutismo aoqual
assisto sem des
viar a t e n ç ã o


mas


a vespa tem  um
zunido   mutável
segundo a  temp
eratura e compo
sto     por   essa
gama de  ruídos
que  disseco  se
é     v  e  r   ã  o

segunda-feira

poesia voyeur

HÁ uma janela
à frente
da minha
onde há um homem
entre 30 e 40 anos
e não há cortina

o sujeito
anda pela casa
como que perdido
atônito afoito



OU SOU EU?









SOU eu naquela janela
entre 30 e 40 anos
os cabelos ainda tem
melanina, há algum gris
travando
embate
empaco
testando
interruptores
um código pra

aviltar   OU
                 invitar

DESCONHECIDOS

não há cortinas ou móveis
não há livros ou quadros
não há cor nas paredes

aquilo é um cômodo oco
um quadrilátero esvaziado

que é que faz
aquele cara, ALI?







FASTIAGÔNICO
TRINCARDOA
CONSOMOÍDA
CANSARENOSA

quinta-feira

poesia sobre um livro bom de poesia

os muitos poemas que
me ocorreram nesse
elástico zeptosegundo
em que tardei, desde
a livraria até um café
( peço expresso, de início esqueço a água que acompanha. com a água a necessidade de consumo se estende ou se anula na conservação de um dedo derradeiro até a hora em que o poema definir-se entre lixo, algo que me pareça válido ou algo que pode validar na próxima xícara )
eram sem dúvida (ou
tinham a possibilidade
imensada dado o fato
de que não são) melhores
que esse e poderiam talvez
inscrever-me nos anais
(gostaria de algum dia conseguir empregar esse termo esvaziado da ironia e do cômico)
da literatura

           *

o livro que eu lia e que
amanhã voltarei a ler –
espero que – até a última
página era um livro que
eu gostaria de seguir
relendolendo por dias
à fio (e não vou) mas
o livro que eu lia fazia
a voz ( ainda que
muda) coicear, entre –
cortar nos fins das
frases e cujo desenho
do som remeteria à
imagem dum zig-zag de
tamanhos variáveis ou
à varizes



























os espaços vazios eram
lacuna à preencher por
imagens, aquela distância
dura entre as estrofes
(ou cenas) era o lugar
de inserção da imagem
e fosse meu o exemplar
talvez (num dia de
coragem)  pudesse ser
ilustrado
talvez fosse mais válido
o espaço branco que fez
intuir um fotograma
saturado de luz até o
branco completo mas
onde a imagem esteve
e ainda rescinde
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
um corte sem cicatriz
aparente mas que na
memória permanece
sendo corte ou tanto
quanto um corte pode
permanecer na memória

                             *

o livro tinha essa capacidade
de pausar a cena e assim
percorrê-la numa fina
observação dos agentes
estáticos/estatifeitos
que então sutilmente eram
dissecados/desvendados
nos aspectos aparentes
e não-aparentes pelo
onisciente-onipresente
também atemporal visto
que circulava pelo tempo
possível futuro, detalhe de
passado, agora sob lupa
além de por à tona
flashes fecundos das
idéias de cada um
dos agentes –
o livro que eu lia foi
interrompido na página
63 por uma horda de
entusiastas de literatura e/ou
canapés e champanhe que
irrompeu à livraria para a
vernissage

                                               *




segunda-feira

um poema mais instruções pra exibição de vídeo e som complementar

Instruções :
Dada a minha incompetência e falta de saco para editar eu mesma um vídeo, peço que:
1. pulem os primeiros dois minutos do vídeo (da globo)
2. retirem o som do vídeo (da globo )
3. dêem play no outro vídeo ( da Janis )
4. com o áudio da Janis, assistam.

segue o poema abaixo, escrito no ínterim desses fatos, retrabalhado/revisitado por agora:

agora, as chamas invadem a cidade
só agora chegam tímidas ao asfalto
nessa cidade que tem
índice de mortalidade
de guerra civil, há anos
agora, uns estupefatos
frente à tv globo
babulciam a interrogação
como ?

agora é tarde
Inês é morta.

Inês e Cláudio, Marcos, Joaquim
Carlos, Pedro, Eraldo, João, José
(outros tantos)

pra burguesia proporão paliativos
à mão atada e cara de babaca:

caminhar na Lagoa
pedindo paz
mas,

fora um Mercedes carbonizado
a Lagoa vai muito bem, obrigada

#

o exército mulambo é lindo
é uma serpente disforme
tingida de poeira na encosta
AR-15, fuzil, metralha e esse
passo descansado de soldado

debandando

até que o salvador da pátria
fardado, começa a brincar
de tiro ao alvo

num fodido porém armado
moleque de nem dezoito que quis
um tênis da nike, um troco pra velha, uma bike
e depois,
um pouco mais

até tentou trabalhar no bob’s
uma grana rala
muita gente escrota
no shopping
escrotérrimo
ele foi escrotizando
até tentou extravasar cuspindo
no hambúrguer, no refrigerante

não deu

#

em alguma esquina da Tijuca
do Cosme velho ou do Centro
um sênior dá instruções pro menor:

“pega um fósforo
acende o meu cigarro
taca gasolina nesse carro”




sábado

alguns neologemas

#

plurivociferatriz
[silênciaudaz]
sumismo solsticioso
[rouquideirice]
dentrentranha solapada
[sordisoslaio]
obscuressência sóbria

VENDAVELADA

#

Tolhidoída
Trapisloucando
Trepilusendo
Luzificando

Se Amargureta
Remedifica
Orquídearía
Pra Treslouser

#

       mitifiz á mim
    prosoperene
        e na projeção
    solidifaço
     do que sublimar
             mormaçerei
         a cruza cabal
            ar denso e aço

#

TRONXO
STUFFADO
UM BELO BRAIN
JAZZ - GELO
ESTURRICADO

#

FOLCLORO :

alveja
Vias
Vai Venal de Vez
Varrer
Vermelho

#

brumaNTO
ATORDOENTOA
UM BRADORMIDO
de inSOLÚGUBRES
CUJO soneSCASSO
É SONHardido

#

SILVO ARGUTO
de AZEDOÇE AÇOITE

                                                quando estala é prata
                                                            prêt-à-porter
NUMA – MALHA – LEVE – ESPUMA – PLUMA

s’inda sibilar se faz chicote
sublime, se empunha a pitonisa
                á fazer de pítio submisso
                   numas de dominatrix; algoz

                                    lê nos talhos dele um tal destino

#

AZEDOÇICADO
AÇOITERNURA
MINGUENTUMECEU
A ÍNGUA-LÍNGUA
NO QUE A BOCA ENGRUTECIA OCA
EIS QUE A GRUTA É QUE
DEGRINGOLIA

#

           résalva
 salisilvada
           tezsende
assimcinde
           emsimonia
  algumrés

[que]

se atado ao peito
   vê simpleza
               por beleza
                             à cinza

#

ESTREBUCH’ÁGUA
SALOBROREADA
ENFASTEANDO
DE TRAGAR NAVIOS
NO DEVAGARMENTE
D’UMA ESPUMA ESPEÇA
PEÇA DA PEÇONHA
D’UM MAR SORRIDENTE

#

orquidiário
absurdado
vitemefeito
em vitreovário

redomaleável
que é a bolha
estouresturrica
no que desenfolha

resfolerefaz
desentreformada
estruturardida
nem bem zás
já traga

quarta-feira

um tanto sádico

lagartas robustas se embrenhariam no emaranhado
dos pêlos pubianos, na penugem da nuca
deixando entrever a pele, empolada

[ primeiro, o laranja que se vê sobre o metal
se é tanta a ferrugem e faz-se a forma
de um mapa talvez de um globo possível ]

espasmos próprios de crise epilética
então, um grito
cortaria
o ar

[ talvez brincar de colher teu grito
pôr dentro dum vidrinho lacrado – aqui, o grito
como o ar de paris certa vez aprisionado
ou as vontades que moravam nos ventres ]

porque vermelhas, as lagartas
tomariam sua nova cor por elogio
contentes se esfalfariam mais e contundentes
pensando talvez instilar mudanças outras
bem-sucedendo em quase susto
obteriam toda uma escala de colorações
somente captáveis por olhares acurados

[ os mínimos deslumbres infantíciosos
de que são capazes os tolos, possível unicíssimo triunfo
sobre os Homens de Ciência e Densidade ]

rósea no entorno, qual mucosa
alaranjado ardente aurifamante
vermelho-china vivaz, encarniçado
rubi sanguíneo abrasador, arredio
magenta amuado degradê pra vinho
pink aberratório, anti-natural
ruivacento pontilhado

[ cosmos aflitivo ]

domingo

Feitura de um curral de tempo:


*

( no encalço 
do gesto 
segue o levante 
de ar corpóreo, aveludado
de cheiro-movimento-peso
e baila uma espiral
de ácaros num 
feixe de sol )

*

1. fechar um quarto cru
- sem móveis, vida, memória -
em que no chão se tenha desenhado
à giz um quadrilátero perfeito

2. tendo anos à gosto retirar
cuidadosamente a película
fina que encobre o quarto
 - os dias, a ausência, os ácaros
o frio ainda que seja alto verão -
salvo aquela inscrita no espaço
delimitado à giz no chão

3. sentar e observar o tempo
encurralado
em um quadrilátero perfeito

*

( tudo sabe
a poeira )
 



quarta-feira

onde:



[a poeta desencana formalmente após descobrir estupefata uma nota do jornal onde seu corte de cabelo recebe os cumprimentos e é algo em comum com Justin Bieber e Camila Pitanga]

dei-me conta num desses
relâmpagos íntimos mais como lanterna em fim de carreira

quiçá é esse eu unicíssimo não mais que bosta rala?
acervo acentuado de idéias simples encadeadas
um trenzinho estrombólico de brinquedo e à vapor
desprendendo cádmio, monóxido de carbono, chumbo
– de trilha – balão mágico/superfantástico pra coicear na vitrola -

uma pira arcaica carrega pela mão pequeninas piras frescas
todas obedientes à beça, catitas, caladinhas, comportadas

dentre elas um filhote de pira-espelho brinca de bailar no rio
(escorrega, quase afoga) na fissura, no clone do cristo, naquela parada
em escorpiões, vilões boa pinta, nothing/anything rebarba de sweet dream
mas com essa carinha six-teen e calça-curta, ergue a fuça: nem água e dá
de ombros pra reflexo (côncavo/convexo/?), corte, caco e corante coral

nessas, o incrível insite

a dita imagem, entre escatologia e miragem, satura até a tampa
é não mais que o arquétipo em voga, quiçá capa da vogue mês passado
amplamente divulgada, a fêmea alucinada, dúbia, confusa
prostituta casta, misantropa extravagante, vai do asilo à suruba
pop pseudo intelectual, porqueira transcendental, adúltero-romântica
frangote frágil, potência duma caralhada de cavalos, egomaníaca, totalmente erotizada
perversa à pampa, prestes a ser canonizada, megalomaníaca sem estribeira à vista
quase crucificada, linchada, apedrejada e vítima de toda a gargalhada
ridicularizada, desprezada, frequentemente ironizada

uma piada

e pode sempre ser Madonna, Britney Spears, Lady Gaga
pode sempre ser Mariana (atriz pornô por acidente, difamada e esquecida),
Bruna Surfistinha (ex-prostituta pródiga autobiografada)
Geisy (vítma de builling devido à mini-saia, acolhida pela mídia e letrada)
pode sempre ser Dita Von Teese (de cinta-liga e chicote)
Gretchen (dançando conga)
Titiolina (e seu ilustre potro)
e pode sempre ser Ana Cristina (poeta, marginal e suicida)
Rita Lee (porralouca na vida e no palco, mostrando a bunda só pra gastar onda)
Pagu (comunista, modernista, também poeta e, naturalmente, do contra)
e pode sempre ser Barbarella, Gulivera, Emmanuelle
e pode sempre ser a Vovozinha, a Vizinha, a Moça sentada do lado agora

[e a gente até podia ficar nessa sempre, mas não vai, felizmente.]

segunda-feira

primeira parte

“A imaginação é a memória que enlouqueceu”
Mario Quintana


1950, (...)

Cena 1

chega trôpego

[ as portas de vidro e arabesco acobreado do hotel
escada de mármore branco
papel de parede em motivos barrocos verde água e sépia ]

[ som dos passos ]

sobe
cai na cama

[ o quarto cinza esbranquiçado
a natureza morta no quadro sobre a cama
a mesa de mogno gasta, crua de adereços
as cortinas ásperas, creme
o piso de lajotas sanguíneas desgastadas ]

espirala
cessa tudo;
é breu dentro do olho

Cena 2

entra a moça

[ 17 anos, o papel vergê A3 e prancheta
exausta de todo o dia coletando face alheia
nalgum boulevard – qual?
as ancas ainda poucas, estreitas.
o rosto frágil
os ossos dos cotovelos e joelhos
claros, nítidos, pontiagudos
pontuando a carne ]

o estranho na cama de lençóis
de linho? de algodão ?

[ voz em off ]

– era minha a cama, e o estranho...

[ na cama alugada do quarto impessoal
o lençol branco, o quarto exatamente igual
aos da coluna correspondente no edifício ]

Cena 3


[ voz em off ]

– que se tem a perder?

cena muda, de corpos e atos;

[ ela sóbria, suscetível, só
o noivo que a espera na Suécia
oficial da marinha cuja beleza
de maxilar proeminente impõem austeridade
uma família de relativa liberalidade
ela estrangeira estudando arte
veio ao mundo num 29 de fevereiro
aniversaria de quatro em quatro anos. ]

Ela – abre a porta
e fecha, um gesto rotineiro

Ela – o corpo se move como dum gato
eriçando pêlos e membros
mescla de raiva, adrenalina, curiosidade

Ele – se move na cama
gira o corpo
ressona
ronca um pouco

Ela – reclina o corpo
encosta no homem
semi defunto exalando álcool

Ele – faz que acorda
cerra os olhos
quase abre

Ela – o compele
sacode o corpo pelos ombros
certa delicadeza na revolta

Ele – acorda
um sobressalto e tonteia
estabaca na cama

Ela – abre a porta
indica a saída

Ele – senta-se na cama
calça sem pressa os sapatos

Ela – abranda
afrouxa os ombros
reconsidera;
não corre mais risco

Ele – olha a moça 
nos olhos de ressaca 
indo à mormaço
apaziguando
tornando gris

Ela – observa
acomete certo instinto maternal;
os gestos moles do bêbado
latino, bigodes espessos, estatura mediana

Ela – fecha a porta.

sábado

desconcertante transtorno e certa veia zoomórfica:

pombo embebido em fuligem futucando alumínio
ácaro incrustado em paletó puído de ombreiras cor de catarro
felino de hábito noturno e andamento de anca ágil quase frágil, ardiloso
peixe à se pensar sereia numa frigideira engordurada
mosca circundando bosta pra pousar na sopa







//num sentido específico/ seio de menina púbere à proeminente câncer benigno/ protuberante acresce agora pelo vazio não exatamente se há ou ar havia/ corpo tomando espaço naquilo ao largo quiçá não seu / alargamento da carne que talvez goela/ supostamente entorno/ dissolução do contorno//

sexta-feira

esses dias e duma tacada.

prece

Esse coágulo
Novo coágulo atado em mim

Novamente desatado laço
Meu bebê à bordo
Meu aborto

Meu morto

Lastro do laço desfeito e torto
Talvez gerado sobre a areia esfriada
Pela lua e pelo céu e pelo sêmen
Numa ilha e num hotel e numa rua escura

Esse coágulo
Novo coágulo retido
Nesse ventre que insiste em ser instinto

Arde ainda que a razão lhe tenha dito

Audito, até a persiana
onde deleitavam horas tortas
de imiscuir-se num possível drama
se o jornal andava como mantra
kadafi, tsunami, obama

um filho sem pai ou pão ou pleito
cujo peso é cifra e sem direito
de ir cegar-se como todo o mundo

Mundo

o ventre redondando repetia
rola logo atrás do teu encalço
há de lhe tombar pelo cadarço
macerar-lhe tripa, tronco, traço
trazer-lhe o pulmão pela traquéia

multidão

o ventre que aplainava retinia
essa que apregoa linchamentos
há de lhe enviar beijos augustos

e ofertar-lhe bons ensinamentos

a saliva sabe a escorbuto
a medea lecionava drama
há o louco, o bom e o bandido
nos possíveis rótulos da trama






..........................................................






fuço espaço
como quem fuma
como quem cai
como quem espia a fechadura
mesmo gesto gasto
meço nuance na gastura

espero

tempo empoeirar o livro
intocado em prateleira estática

mofo enrodilhar a fruta
de tão morta avessa mesmo a mosca

lâmpada de luz enxuta
tão somente vidro ali pendido


traço

de mim define face
azeda
desfia
desfigura



centro

engulo, engasgo, regurgito

                                      não contém

oco
vaso

cacos numa várzea


mito






...............................................................






pútridopuído

ser sempre o mesmo
poema desde o primeiro poema
sempre o mesmo primeiro poema
o mesmo poema primeiro
sempre sendo o mesmo

tecido à ser

ser sempre o mesmo poema
desde o primeiro poema sempre
o mesmo primeiro poema
o mesmo poema
primeiro sempre sendo o mesmo

à ser tecido

ser sempre
o mesmo poema desde o primeiro
poema sempre o mesmo primeiro
poema o mesmo poema primeiro
sempre sendo o mesmo

pútridopuído


...................

domingo

Vitalício

Afogo

“Se tanto me dói que as horas passem”
Pra que usar a cabeça tão erguida se o pescoço torto se curva como caule?
Se fechei os olhos ou apaguei a luz
Foi para não ver
O que a cegueira não deu conta

Desafinando o suspiro
Respiro. O último ar do dia – Em vão
Se esvai pelas minhas pernas
O que o ventre não segura
O que nas horas já não cabe

Me atrevi (a)pagar
Feito vento
Lapsos de tinta espalhados pelo chão

Suada
Percorri com os dedos
A própria pele
O que a carne descuidada
Exilou

Correnteza quando forte
Leva ao peito
O silêncio
Que a criança não fechou

Vitalício sangra como as mulheres
Resquícios de um tempo
Em que o mundo desandou

A cidade desabitada
Dorme a salvo
Já que a mãe
Vendida como suja
Já ventou

quarta-feira

entreouvido num espaço público

porra, nem a queria
e ela que fez tanto
nem me soube
aquele dia
foi se enrroscar
aquela puta
noutro cara
que não merecia
desaparecida
aquela santa
disse o tal terceiro
que a comia
madalena quase arrependida
aquela louca
pôs fechada
a perna que se abria